Depoimentos

Depoimento do Professor Juvenal Caldeira Durães

O ensino superior foi criado com a eficaz e valiosa atuação do deputado Cícero Drumont (de Bocaiuva) junto às autoridades governamentais em prol da criação da FELP (Fundação de Ensino Luís de Paula) em 1962, entretanto em efetivo funcionamento em 1964 com quatro turmas pioneiras, dando origem a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras/FAFIL, transformada em 1990 em “Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES”.

Não podemos esquecer-nos do movimento e empenho das incansáveis “meninas loucas”, como foram chamadas pela professora e escritora Yvonne Silveira, num de seus discursos em referência às recém-formadas em educação na capital Belo Horizonte que acabavam de regressar à nossa terra com o propósito de lutar para a criação do ensino superior que, até então, não passava de um sonho dos norte-mineiros. Esse grupo de revolucionárias formadas pelas irmãs gêmeas Mary e Baby Figueiredo, Florinda Ramos, Dalva Dias, Isabel Rabelo, diretora dos primeiros cursos no início de 1964 nas dependências do Colégio Imaculado: Português, Geografia, História, Pedagogia, do qual tive honra de ser aluno ao lado de uma elite pensante que esperava uma oportunidade para desabrochar seus conhecimentos acumulados pelas experiências vividas, como a escritora Maria Pires, a famosa diretora educacional D.América Nogueira, D. Elisa Pires, e outras personalidades de mesmo nível e com situações profissionais definidas.

Posteriormente o grupo foi reforçado para manter os cursos com eficiência, com a chegada de Glacíria Mendes, Maria de Lourdes Freitas, Sônia de Quadros e D. Loures Ribeiro, formadas nas faculdades de Belo Horizonte e ainda foram aproveitados intelectuais, profissionais liberais e religiosos do notório saber, para completar o corpo docente para o aprimoramento e crescimento da Instituição criando novos cursos.

A FELP transformou-se em FUNM (Fundação Universitária do Norte de Minas), para dar continuidade ao seu funcionamento,no casarão da rua Cel.Celestino, 75, criando a unidade de ensino superior, com o nome de FAFIL (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) e os cursos, como: Direito e Medicina.

Em 1968 os professores de matemática com habilitação da CADES/MEC que já lecionavam na cidade tiveram a ideia de criar o curso de Matemática de nível superior para regularizar as suas situações. Procuraram a então diretora da FAFIL, Sônia Quadros, que prontamente apoiou o grupo desde que uma comissão fosse criada para ajudar na concretização do curso. Eu, Rosa Terezinha Paixão Durães, Wandailk Wanderley, Waldir Rametta, José Duarte Callado, José Soares e outros entusiasmados com o evento, com o apoio da diretoria começamos a movimentar. Passamos uma lista de adesão ao curso e fomos atrás de Francisco Bastos Gil lá em São João Del Rei, onde ele era aspirante do Exército, para dar início ao curso. Ele aceitou ao nosso convite e veio para Montes Claros, para nos atender , começar uma nova vida e uma nova profissão. Era recém-formado em Matemática pela Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte e um grande entusiasta, que se tornou nosso grande amigo e benfeitor.

O curso foi instalado e formado o corpo docente, em sua maioria dos liberais de notório saber em áreas afins. Gil era a “mola mestra”, dava o suporte necessário garantido a qualidade e funcionamento do curso. Organizou o departamento de Matemática e assumiu as matérias mais pesadas. Tinha uma organização perfeita do quadro negro e do seu trabalho. Boa didática, bom manejo de classe e domínio nas matérias que lecionava o que nos tornou simpático e amigo. Foi nosso verdadeiro líder, que ainda hoje lembramos com saudade.

A primeira turma do Curso de Matemática formada em 1971, na ex-FAFIL/FUNM (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras/ Fundação Universitária do Norte de Minas), hoje CCH/UIMONTES (Centro de Ciências Humanas/Unimontes): Clarindo Anacleto, Coracil Freitas Gonçalves, Edson Guimarães, Egídio Cordeiro Aquino, Gerson José Barbosa, Geraldo Oliveira Santos, José Carlos Duarte Callado, José Soaressa Silva, Juvenal Caldeira Durães, Maria Ivonete Lopes dos Santos, Marisa Monteiro Guimarães, Rosa Terezinha Paixão Durães, Rivaldo Bezerra, Waldir Rametta, Walkiria Gonçalves dos Santos e Wandaik Wanderley. Esses foram os 16 que chegaram até o final do curso, iniciado em 1968, com 64 alunos distribuidos em duas turmas (uma à tarde e outra à noite) e terminado com uma só noturna, com apenas, 16 formandos em 1971. Os outros se perderam no decorrer do curso.

A UNIMONTES tornou Montes Claros um polo universitário de renome nacional que, além de atender nossa cidade, acolhe alunos de toda região Norte Mineira, com eficiência de seus devotados funcionários e com o altruísmo e preparo do seu corpo docente, com especializações diversas, mestrados e doutorados. O Japão é uma ilha problemática territorialmente, saiu de uma guerra mundial e, no entanto esse país está entre as maiores potências do mundo.

A Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES com suas Unidades, procura juntamente com as outras instituições educacionais fazer a sua parte, desafiando e enfrentando as dificuldades e indiferenças. Montes Claros, atualmente conta com diversas faculdades particulares, escolas de ensino técnico, colégios de 1° e 2° grau, público e particulares.

A FAFIL virou Centro de Ciências Humanas/CCH-UNIMONTES e o curso de Matemática transformou-se em Unidade de Ensino de Ciências Exatas, instalado num suntuoso prédio do Campus Universitário/UNIMONTES. Há alguns fatos que lembram a minha saudosa passagem por ali: um laboratório com o meu nome; uma foto na geladeira dos diretores, entronizada entre os demais colegas que por ali passaram. Existem também nossos ex-alunos, hoje professores titulares com mestrados e doutorados, dando prosseguimento, com eficiência e zelo, ao nosso trabalho, além de alguns colegas amigos que ainda restam, ali permanecem. Muitos faleceram, outros aposentaram ou tomaram destinos desconhecidos, mas, presentes em nossos corações.

Eu procurei participar das diversas áreas de atividade dos educandários por onde passei: regente de sala de aula, Chefia de Departamento, Comissão de Vestibular, Vice-diretoria por várias ocasiões, diretor do CCH, Conselho Universitário e do Conselho de Pesquisa e Extensão. Foi um passado de lutas atribuladas e penosas, todavia, compensatórias e saudosas. Minha esposa, Profª. Rosa Teresinha Paixão Durães acompanhou-me nessa trajetória de lutas, de trabalho e estudo lecionando Matemática e Estatística na Escola Estadual Prof. Plínio Ribeiro, na FAFIL e na UNIMONTES, Hoje aposentada e minha companheira na arte musical do Conservatório Estadual, Lorenzo Fernandez.

Quantos aos professores do curso de Matemática: Gil, como já foi dito, foi nosso professor durante todo o curso lecionou Cálculo Integral e Diferencial, Cálculo Numérico e Fundamentos Matemáticos. Outros professores, de igual peso e de nossa alta estima, foram: Profª. América (Metodologia Científica); e outros, também importantes, que me fogem da memória. Para dar continuidade ao curso, depois dessa etapa inicial, foram aproveitados pela FAFIL, após a colação de grau alguns dos formando, como: eu para lecionar Álgebra, Geometría Analítica e Análise Matemática; Rosa, Estatística e José Soares, Física. Lá permanecemos até a nossa aposentadoria. Também, Callado, Marisa e Rametta colaboram por um curto período.

Passamos a ser os professores das turmas que nos seguiram e, também, de algum dos nossos ex-colegas que ficaram para trás. Os nosso alunos/as, que mais sobressaíram, foram sendo aos poucos aproveitados e nos sucedendo com as nossas aposentadorias: Ruth Tolentino, Rosina Nuzzi, Cleusa Santos, Francisco Tolentino (Chiquita), Rosivaldo, Edson, Rômulo, Sebastião, Dilma Mourão, José Barbosa e outros que se destacavam, aperfeiçoaram com especialização, mestrado e doutorado. Alguns já até aposentaram, outros continuam, com eficiência, o nosso trabalho, dando prosseguimento à nossa luta em prol do ensino da Matemática. A UNIMONTES cresceu e com ela, também os cursos, apesar dos pesares.

Gil era muito exigente e tinha um livro secreto que o batizamos de “o livro da capa preta” para formular as “intrincadas” questões das provas . Nós estudávamos extensivamente e fazíamos todos os exercícios dos livros adotados, porém na hora dos exames, apareciam questões inesperadas que nos traziam sérias dores de cabeça . Mas, aquela turma era formada de “tarimbados” em Matemática e se o mestre não se cuidasse, todos tiravam nota máxima. Penso que foi a turma mais forte que passou ali. Era mais ou menos quatro horas para realizarmos a prova. Gil dizia que os problemas dos livro adotados, nós já sabíamos, por isso, ele cobrava outros. Mesmo assim, quase todos tiravam dez. A turma era preparada, assídua e demonstrava habilidade nos momentos de prova.

Para completar nossa formação, procuramos, posteriormente, as universidades dos grandes centros para ampliar os nossos conhecimentos. Fizemos cursos de Matemática Moderna em Belo Horizonte, ICEx/UFMG; de pós graduação na PUC para substituir métodos tradicionais desmotivadores. Enriquecemos os nossos conteúdos e aperfeiçoamos nosso conhecimento com metodologias modernas, com métodos mais agradáveis e racionais.

Tempos depois, fui eleito vice-diretor da FAFIL na chapa da Profª D. Lourdes Ribeiro e depois eleito diretor do Centro de Ciências Humanas UNIMONTES/(CCH), tendo como vice a eficiente e zelosa Profª. Maria Aparecida Costa e a colaboração  de Josy e Marta Aurora Mota, até a minha aposentadoria em 1997, depois de quarenta longos anos de magistério , como regente de sala de aula, chefe de departamentos, vice-diretor e diretor do Centro de Ciências Humanas/UNIMONTES.

A Matemática é uma matéria racional e rígida dentro de seus princípios. Muda-se apenas, seus métodos pedagógicos, procurando processo de aprendizagem mais suaves e produtivos , com metodologia especial.

O método tradicional usa processos mecânicos, sem preocupar com os fundamentos das elementares da matéria, o que não é correto. Para aprender um assunto corretamente deve partir dos princípios fundamentais. A matemática é uma ciência universal, todavia chegou às escolas através da teoria dos conjuntos, com aquelas historinhas dos homens das cavernas e pastores contando seus animais com pedrinhas. Seus estudos evoluíram com formações de conceitos, estabelecendo propriedades com a evolução da humanidade, Nos nossos estudos aprendemos assuntos avançados e às vezes, não observarmos as raízes com a devida atenção.

O curso da matemática da velha FAFIL, hoje funcionando no Campus Universitário, no suntuoso Prédio-3, e na categoria de importante Unidade da Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES, sob a sigla CCET/Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas, abrigando os cursos de: Matemática, Engenharia Civil, Engenharia de Sistema, Sistema de Informação, para a nossa satisfação e orgulho por ter participado do plantio de uma sementinha que cresceu e deu frutos para a nossa geração e, certamente, para o bem da posteridade.

Além disso, foi um fato importante na nossa carreira de magistério, no nosso crescimento do pensamento lógico e no meio  estudantil da região e, também, no desempenho de nossa vida profissional, afetiva e emocional, deixando saudades indeléveis de cada professor que nos conduziu com clareza nos momentos de dificuldades e, de cada colega com seu companheirismo sadio e com suas brincadeiras alegres, tornando-nos cada vez mais próximos e amigos.

“Professor, profissão que forma todas as profissões

“Amizades são feitas com pedacinhos do tempo que vivemos com cada pessoa” (Saint-Exupéry)

“A tragédia da vida é que ficamos velhos cedo demais e sábios tarde demais”

Não podemos esquecer dos dirigentes , professores, funcionários, que se destacavam pela eficiência e trabalho honesto, como: Antônio Jorge, sua esposa Zinda, vindos de BH para reforço do ensino e, mais tarde nossos ex-alunos egressos dos cursos, passaram a assumir as lideranças da Instituição com eficiência, na posição de funcionários zelosos, professores competentes e até alcançando altos cargos da administração e do magistério, como: Rosina Nuzzi, Dilma Mourão, Ruth Tolentino, Rosa Terezinha Paixão Durães, José Soares, Rosivaldo, Édson, João Barbosa, Rômulo, Sebastião Alves, Luiz Ribeiro, Benedito Said, Otávio Braga, Humberto Veloso, Cibele Veloso Milo, Maria Luiza Silveira e também, o pessoal das secretarias dos serviços gerais e, outros de igual valor, tornando a UNIMONTES,  orgulho do norte de Minas e cartão postal de Montes Claros.

Como nada é de graça, esses acontecimentos não caíram das nuvens, tiveram início com o trabalho incansável do laboratório Dr. Hermes de Paula, respaldado pela assessora Adélia Miranda (“eterna secretária da FAFIL”) , do dinâmico Dr. Mario Ribeiro e outros da mesma estirpe importância para a comunidade universitária. Devemos assim, destacar com justiça, como benfeito: Dr. Raimundo Avelar, Mitra Diocesana, que cedeu espaço adequado e estratégico para implantação da então FUNM, na gestão do Dr. João Vale Maurício, dando-a estabilidade e condições de crescimento ininterrupto e definido, para alcançar a categoria de Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES  em 1990, na gestão de Dr. Geraldo de Freitas Drumond, também de tino administrativo refinado, para fazer, com eficiência e brilhantismo o seu trabalho apoiado por assessores e funcionários, sem esquecer do crescimento físico com construções modernas e práticas,para o enriquecimento do patrimônio da comunidade universitária e bem estar de seus usuários, sem descuidar da expansão de centros e cursos, levando os as cidades vizinhas para o desenvolvimento regional da educação , além de proporcionar a comodidade dos estudantes norte mineiros, evitando-lhes “do vai e vem das viagens” penosas para receber distantes dos seus domicílios, diariamente

Tenho orgulho de dizer que, modestamente participei desse movimento efervescente e edificante do Reitor Dr. José Geraldo de Freitas Drumond, como professor de Matemática e diretor do Centro de Ciências Humanas/CCH/UNIMONTES e, ainda, fiz parte do processo de implantação da direção do primeiro centro criado, para funcionar na cidade de Januária. E, também atuei como membro nato do “Conselho Universitário” e do “ Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão”. Enfim, foi um período de gestão salutar para criar e solidificar um trabalho, com o propósito de preparar a UNIMONTES para o bom andamento da Entidade,do bem comum e para a continuidade tranquila das administrações dos seus sucessores.

Nessa jornada, sem intenção de promover-me, mas, a bem da verdade, eu assisti e participei, desde 1955, dos avanços do Ensino em Montes Claros irmanado com companheiros entusiastas e de espírito solidário, todavia não faltaram as dificuldades naturais de bastidores gerados pelas circunstâncias diversas e por alguns elementos de difícil relacionamento que, às vezes, dificultavam e até desestabilizaram o trabalho sério daqueles no cumprimento de seus deveres. Contudo, os frutos vieram e vingaram para o bem geral . O trabalho em grupo nem sempre é fácil, precisa paciência e sabedoria como lidar com as intempéries da vida, para realizar metas e alcançar objetivos almejados em prol da sociedade.

Muitos fatos ainda serão contados e outras pessoas de peso aparecerão como protagonistas dos acontecimentos no cenário educacional, como os atuais dirigentes da Unimontes, o reitor Dr. João Canela e a Vice-reitora Profª Maria Ivete Soares Almeida na primeira gestão e Prof. Pe. Avilmar, na segunda que, com paciência e competência que lhes são peculiares, deram continuidade, com suas valorosas equipes de colaboradores, o progresso desse patrimônio cultural em benefício do povo de Montes Claros e do Norte de Minas.

Confiando na memória e na convivência de quase meio século nos meios educacionais de Montes Claros, fiz o presente resumo do ensino no Norte de Minas, a partir da década de 50, mencionando importantes criações e eventos, dos quais participei, tais como curso científico; cursos superiores, que deram origem a UNIMONTES: Escola Profissional Umbelino Martins da RFFS/A; cursos da CADES/MEC de Matemática e Geografia: Escola Técnica de Montes Claros; Escola Normal Oficial, (1958) com continuidade na Escola Estadual Professor Plínio Ribeiro /EEPPR (1962); Colégio Imaculada, Instituto Norte Mineiro de Ensino e da implantação da nova estrutura pedagógica dos cursos da UNIMONTES; implantação do curso de Matemática/FAFIL.

(Extraído da obra Assim eu Penso de autoria de Juvenal Caldeira Durães. Montes Claros-MG: Editora Millennium, 2018. p. 175-185)

Diretor do CCH, professor do curso de Matemática

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